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Projeto quer dar 'sentido a vida'

ONG de Ibiporã combate índices de recaída dos dependentes químicos com atividades lúdicas e educativas

Fotos: Fabio Ciquini

Jovens aprendem um ofício e recebem apoio psicológico

Júlio Conceição, presidente do projeto: recuperação

Ibiporã - Uma das doenças crônicas mais preocupantes da atualidade e que afligem famílias de todo o mundo, certamente, é o problema da dependência química. Seja pelo fácil acesso ou banalização do uso, as drogas estão cada vez mais cedo presentes na vida dos jovens, adolescentes e até mesmo das crianças. Diante dos altos índices de dependentes, o número de casas de recuperação cresce. Mas, ainda assim, não é suficiente para absorver a demanda. O assunto é debatido durante a Semana Nacional de Prevenção ao Uso de Drogas.

Mesmo que os esforços e olhares estejam voltados para o tratamento, muitos dos que passam por clínicas ou comunidades têm recaídas. Isso porque, ao retornar para o mesmo ambiente, deparam-se com dificuldades de reinserção, seja social ou no trabalho e, consequentemente, não conseguem manter o equilíbrio necessário para ficar distante das drogas.

Para ajudar pessoas nesta situação, existem programas e grupos de autoajuda em todo o país, e um deles está perto de Londrina e região. Para que jovens tenham sucesso no tratamento, a ONG Valorizando a Esperança, com sede em Ibiporã (Norte), criada para ajudar pessoas em situação de risco e, principalmente ex-dependentes químicos, tem oferecido oportunidades a esses jovens. São diversas atividades nas quais eles aprendem, para poder, enfim, lidar com as adversidades e possíveis frustrações.

O presidente do projeto, Júlio Conceição, explica que o motivo da criação deste projeto se deu após anos acompanhando o tratamento de dependentes. ''Constatamos que somente este não era suficiente para a total recuperação. As necessidades demonstradas por todos aqueles atendidos em situação de dependência química iam muito além da droga. Por isso, além do tratamento, tornou-se imprescindível voltar nossas atividades para a prevenção, inserção social pela qualificação e pela espiritualidade'', diz.

De acordo com ele, o projeto funciona como uma extensão do tratamento realizado nestas comunidades. ''Os jovens que saíam destes locais voltavam ao vício porque não conseguiam colocação em empregos, justamente pela falta de capacitação que não adquiriram em função dos longos anos de dependência. Aqui, eles aprendem um ofício, além de receber apoio psicológico e ter momentos de lazer e cultura''. Atualmente, o projeto atende cerca de 70 jovens, ex-dependentes e menores que cumprem medidas sócio-educativas e liberdade assistida.

Entre as diversas atividades estão cursos de estamparia, produção de sacolas, corte e costura, informática e música. ''São várias as atividades que buscam, acima de tudo, a recuperação da autoestima. Mas, que ao mesmo tempo promove a preparação profissional trazendo uma nova perspectiva e sonhos renovados, pois eles veem que são capazes de fazer algo e mudar sua história. Tanto que o slogan do projeto é 'Sentido a Vida', que é o que eles buscam e encontram aqui'', destaca o coordenador.

Marian Trigueiros
Reportagem Local

 

'Com certeza estaria morto, como meu irmão'

Com apenas 16 anos, Lucas já têm muita história no currículo. Infelizmente, a maioria não é boa. De família humilde, foi abandonado pela mãe ainda aos 11 anos. Morando com o pai e o irmão, não conseguiu controlar os desejos e rebeldias da adolescência e aos 12 anos estava envolvido com o crime. ''Comecei a roubar e logo fui preso. A droga também fazia parte da minha vida; era maconha todos os dias'', lembra o jovem.

Por ser menor de idade, ficou um tempo em uma unidade educacional e depois começou a cumprir sua pena. ''Como estava em liberdade assistida, tive de começar a vir todos os dias aqui no projeto. No início não acreditava que pudesse mudar a minha vida. Mas hoje eu vejo a diferença. Voltei a estudar e além de aprender a estampar camisetas, aprendi a respeitar as pessoas.''

Se não fosse a oportunidade, Lucas acredita que não estaria vivo. ''Com certeza eu estaria morto ou na cadeia, como meu irmão. Agora eu sei que não quero isso para mim. Sonho em ter um trabalho, ser um motorista de ônibus, quem sabe? E sair por aí conhecendo o país'', diz ele, com um sorriso largo no

 

'Não há tempo para ficar depressivo'

A tal curiosidade da adolescência não poupou que Cláudio, hoje com 31 anos, experimentasse um cigarro de maconha, ainda aos 13 anos. De lá para cá, foram outros 13 anos como dependente químico. ''Usei de tudo, até chegar no crack.'' Consciente de que precisava mudar, procurou ajuda, que resultaram em seis internações desde 2004. ''Foram várias recaídas, mas em março deste ano saí de uma comunidade e estou sem usar nada'', comemora.

Para auxiliar na continuidade do tratamento, ele participa como uma espécie de ''faz tudo'' no projeto. ''Fico aqui o dia todo ajudando nas estampas, fazendo entregas e ensinando os meninos novos que chegam. Quero isso daqui para frente: pretendo me ocupar ajudando outros na mesma situação. Este compromisso me ajuda a não ter recaídas, pois não há tempo para ficar depressivo.''

Compromisso que também dá esperanças ao ex-dependente Rafael, 24 anos, que se prepara para começar a lecionar aulas de inglês no projeto, já que fez intercâmbio na Inglaterra. Apesar de ter uma realidade econômica diferente de grande parte do restante dos jovens, a droga não fez distinção. ''O vício não escolhe, mas acaba com todos da mesma forma'', conta, que desde os 16 anos, usou praticamente todos os tipos de drogas, incluindo os sintéticos.

Recém-saído de uma comunidade, ele acredita que dessa vez vai ser diferente. ''Já engordei quase 20 quilos nesse tempo. Estou muito animado e confiante para que as coisas mudem. Penso em voltar a estudar e ser comissário de bordo futuramente. Mas enquanto isso não acontece, vou me ocupar por aqui, onde estou feliz e me sentindo útil.'' (M.T.)

 

 

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